HISTÓRIA DO BRASÃO DE NATIVIDADE



- A origem de sua simbologia -

Iraci do Nascimento e Silva
Julho de 1986



I
São até certo ponto, líricos mas, reais, os trechos da história que vou contar.  São lances isolados – alguns quadros do álbum de fotografias da minha experiência.
Tudo começou por volta de 1914, quando meu pai, Francisco Soares do Nascimento, adquiriu a madeira de um trecho de mata-virgem, de propriedade do fazendeiro Elias Minga.
Meu pai exportava madeira. Para acompanhar, de perto, a derrubada das árvores seculares, adaptou uma casinha modesta, pouco distante da sede da fazenda, onde pretendia passar alguns meses coma família. Era uma construção singela, mas coberta de telhas, paredes de taipa, branquinhas de cal.
Lá, dei os primeiros passos e, de lá, saí com quase seis anos, já alfabetizada e com sonhos. De lá não esqueço. Ainda escuto o gemido das rolas.. o pio dos jaós... a gritaria dos guaribas... o gargalhar das corujas... a algazarra das maitacas... o farfalhar das árvores e outros sons misteriosos da mata que chegava a poucos metros de casa.
Ainda guardo, nítida, a sensação, aterradora, do medo que a criança sentia quando a alertavam pra o perigo das serpentes que incursionavam, até mesmo por dentro da casas, ou se escondiam do sol sob pedras, amontoadas em volta de cruzes de madeiras, fincadas, não se sabia por quem, na margem da estrada, em frente à nossa casa...
De tudo me lembro... Mas minha fantasia superativava-se quando, à noite, cansados do trabalho, os homens cotavam  “casos” – aumentados pelo clarão de pequenas fogueiras acesas em baixo da janela – onde meu pai se debruçava... Oh! Como me lembro! Certa noite, pareciam mais preocupados. A derruba chegara às terras dos “puris”! E vinham as estórias... – Que medo!
Que medo do desconhecido!... Meus temores, meus receios só se apaziguaram quando minha mãe, Maria Mendes do Nascimento, falou á classe de alunos, à qual dedicava de suas horas, sobre o descobrimento do Brasil e seus primitivos habitantes. Como exemplo próximo, citou os “puirs”, remanescentes dos índios que habitavam a região norte do Estado.
Natividadense mais antigo certamente se recordam de um tipo popular, de baixa estatura, atarracado, linguagem quase inintelegível... Nosso José Puri, assim o chamávamos, era um remanescente daqueles que as intempéries, e que mais, dizimaram seu habitat. Era manso, prestativo, gostava muito de crianças e até se apegou, de modo muito especial e doce, á menina Jalcione, filha da Semirinha e Filhinho Campos. Quem, dele ainda se lembrará?
Na memória da minha infância ainda estão a modesta sala onde havia a mesa com dois bancos laterais e, num ângulo, alvo de atenção, do carinho e do respeito de todos, uma pequena Bandeira Nacional, diariamente desfraldada, enquanto os hinos cívicos eram cantados.
Por muitos anos revi uma série de desenhos, bandeiras, índios, estrelas, flores, pássaros, precocemente feitos e pintados a lápis de cor pela criança que eu era, guardados com carinho pela “mãe-professora”... Assim nasceu, naquele berço modesto, toda a força do meu civismo!
O que contei, talvez com excesso de minúcias, parecerá desligado do tema principal ao qual me propus : contar a história do “Brasão”. Mas, não é assim... Talvez programada por Deus, minha vida embasou, desde a primeira infância, o alicerce onde se ergueria o primeiro ele mento a figurar no “símbolo”.

II
Como menos de oito anos, do alto de uma cadeira colocada na plataforma da “parada” do trem, (já destruída) a moreninha miúda, pele avermelhada pelo sarampo, assessorada pela irmã mais velha, a Margarida, a moreninha Bispo que... “pela primeira vez pisou o solo nativense”... Como convinha, finalizou suas palavras ao ilustre visitante ofertando flores, cuja fragrância é doce, e cujas pétalas são delicadas, como delicados e doces, são os sentimentos que se aninham o Vosso Magnânimo coração”... Assim disse eu.
Este discurso foi marco inicial para uma fértil carreira de anjo, sempre de branco, com belas asas de pena. Carreira que se estendeu das procissões ao altar, onde, por muitos anos, durante todo mês de maio, coroávamos Nossa Senhora da Natividade. Degraus daquele mesmo altar esculpido em cedro, e pátina sobre ouro velho...
Aprendi, pois desde criança, a conversar com a Mãe de Jesus, com intimidade respeitosa com que um filho conversa com a sua mãe. A vivência com a fé foi a semente que me levou a abrir no Brasão, um lugar de hora para a nossa querida Padroeira.

III

O tempo nem sempre varre da memória as impressões mais fortes. Elas permanecem tão indeléveis quanto as velhas  marcas das pegadas, sobre o cimento fresco.
Ainda me lembro, e como me lembro! Estávamos no sempre festivo mês de maio, mas, naquele ano, com festividades especiais.Caberia à menininha de oito que eu era, o papel de anunciar, no palco do “Clube Dramático Literário e Recreativo”, os quadros da peça, tipo operata, que se desenrolava mostrando o desenvolvimento de Natividade, da origem aquela data. Era uma bela Revista, escrita pelo gênio de Antônio de Lannes, um descendente dos pioneiros, e levada à cena com auxílio de Antôno Gasbrilo, João Antônio Fernandes, e outros. O elenco era, todo, formado por artista da terra.
O motivo especial do espetáculo: integrar o programa das comemorações pelo primeiro centenário de Natividade!
As representações teatrais eram freqüentes  em Natividade mas, aquela, mais notável se tornara porque contava, na platéia, com a presença honrosa do Senhor Governador do Estado, o Excelentíssimo Senhor Dr. Raul Veiga.
A vocação artística dos filhos de Natividade é evidente. Principalmente no que diz respeito às artes cênicas. O nível cultural do povo é notável e se expandiu depois que teve seu primeiro Ginásio, graças à louvável iniciativa do Senhor Alcenor Boachat, um benemérito.
Por tudo isso, o “livro” e as “mascaras” ganharam destaques no Brasão de Natividade.

O rio Carangola, serpeando entre as serras, orientou e conduziu o nosso crescimento urbano. Parece ora subir, hora descer, quando  olhando de suas pontes. Passa marulhando, contornando de figuras e ingazeiros. Dele sempre fui enamorada...

Quando a tristeza me invade,
quando a saudada me amola,
afogo a minha saudade
nas águas do Carangola...

O Carangola é a mais  velha presença que se faz presente no Brasão de Natividade. Sem ele, o símbolo não estaria completo. Tão inscrito no meu sentimento, tão belo na minha apresentação estática, tão digno da nossa gratidão, o nosso rio não poderia ficar ausente.

IV
Conheci o apogeu e a decadência do café na história da nossa agricultura, história tão ligada à nossa própria vida, ao nosso desenvolvimento econômico e social.
Nenhuma outra cultura, nenhum outro evento, levou tão longe, tão fora de nossos limites físicos, o nome de nossa natividade!
Nossa Estação da Estrada de Ferro era insuficiente como o maior ponto que era, de escoamento da maior riqueza nacional!
O belo cacho de rubis conquistou, pois, direito à presença no Brasão, pelo reconhecimento, insofismável, da fase de ouro do nosso crescimento. Ao café, nenhuma outra fonte de riqueza se igualou, o que lhe conferiu a justa posição que a ele foi reservada.

V
Mias um pouco da minha vida, sempre a gerar subsídios para o desenho do futuro Brasão.
Em 1925 saí do Grupo Escolar “Francisco Portella” para concluir o curso primário em Campos, na Escola (pública) Modelo “Seis de Março”. Do programa, constava a história do Município, mas, não tardou, porém, que eu recuperasse o nível dos conhecimento exigidos, tal foi meu interesse. Encantei-me,  sobre tudo, coma biografia de seus filhos ilustres. Também conheci a história da fundação, acidentes geográficos, fontes de riqueza etc. Benta Pereira, a matrona heroína, ganhou forus de lenda na minha imaginação. Enquanto isso, me perguntava: qual seria a história da minha Natividade querida? Certamente ela a teria...Lá estavam, no alto do morro, atrás do Teatro, alguns túmulos dos quais as crianças fugíamos, espantadas pelas lendas criadas em torno dos mesmos.
- Quem eram? O que éramos, quando foram levados para lá, tão distantes estavam do cemitério? Como vieram ter a margem do rio Carangola? Afinal, por que vieram?
As repostas não tive, eu, logo, mas, meu amor, e minha vaidade machucada pelo exemplo campista, impeliram-me à pesquisa, no intuito de, mais tarde, divulgar os resultados do meu coração aos corações dos futuros alunos.
De uma coisa estava segura: Natividade, forçosamente, teria uma história que eu não gostaria de continuar ignorando!
Qual seria a origem da minha Natividade tão querida? E quem me revelaria de maneira total e segura?
Em 1932 reacendeu-se a luz que iria iluminar o que ainda era nebuloso. Finalmente iria saber qual a relação daqueles velhos túmulos com aquele “sobrado”, as Fazendas circunvizinhas, os Lannes, os Rabello, os Tinoco, os Santos, os Pereira, os Brandão e outros.
Recém formada, o momento era mais do que propício: iria transmitir aos alunos os conhecimentos equivalentes àquelas que recebi, em Campos.
Procurei o que me parecia lógico: o contato com os mais idosos. Unânimes, indicaram-me o Major Francklin Rabello, descendente direto dos pioneiros, o mais estudioso do assunto, o maior conhecedor da nossa tradição.
Fui descobrir o Major mergulhado entre livros, na Biblioteca, por sinal, na ocasião, uma das mais valiosas do Estado, pela posse de exemplares raros, em todo Brasil!
Sensível ao meu interesse, colocou-se a minha disposição, satisfazendo a minha curiosidade. Fiquei entusiasmada! Fiz anotações e mais tarde, levei a ele o resumo das informações, já na forma de serem repassadas às crianças, como material didático. Naquele exato momento, nascia na minha consciência, a ESTRELA que brilharia, anos depois, no Brasão. Ela é o símbolo da justa homenagem tributada aos bandeirantes.
- Deus os tenha em sua glória!

VI
Passaram-se anos. Certa tarde, parei sob uma janela, para cumprimentar o Major Francklin Rabelo. Estávamos, ele e eu, emocionados. A poucos metros dali, avistávamos, estendida na rua, em frente o adro da Igreja, o corpo inerte, carregado de ninhos, da “palmeira imperial”, velha amiga que se misturava às doces lembranças da minha infância... Falamos do vandalismo, que destrói a memória das coisas...
O sol sumia quando voltei para entregar-lhe a cópia deste sonet, escrito sob o impacto de dorida inspiração.

ADEUS À PALMEIRA
Ao Major Francklin Rabello

Não mais verei a copa verdejante
banhada em prata, em noites de luar...
Nem ouvirei o leque farfalhante
cantando á brisa, um canto de embalar...

Não verei mais a sombra cariciante
onde, em criança, também fui brincar...
- Ao tombar, num gemido soluçante,
deixou vazio e triste, o seu lugar!

Imolada, ela fez um benefício...
- O progresso que altera, modifica,
o progresso exigiu seu sacrifício.

Ouço os sinos... A voz plagente encerra
no adeus, esta saudade de quem fica
- Palmeira Imperial de minha terra!

Neste momento, pediu-me que esperasse. Voltou à janela com algumas páginas, nas mãos. Entregou-me as dizendo estar transferindo às minhas, com a incumbência de escrever um livro sobre Natividade. Este documento, cedido, por empréstimo, a alguém da família dele, cita o ano de 1821 para assimilar a presença de José de Lannes Dantas Brandão como sendo aquela em que o primeiro homem civilizado pisou nossas florestas, àquela época, habitada por “puris”. Era a data inicial de uma epopéia que prossegui com a chegada de seus irmãos Francisco e Antônio, o que aí se estabeleceu, dando origem à povoação que prosperou sob a proteção de Nossa Senhora da Natividade.



VII

Estamos chegando ao fim, marcado pelo feliz encontro de um velho sonho com a magia que lhe daria forma e cor.
No auditório da “Rádio Roquette Pinto” iam ser conferidos troféus e medalhas de um concurso de poesias. Neste dia conheci o internacional conhecido Prof.° Alberto Lima, chefe do Departamento de Heráldica do Mistério da Guerra. Com o grande haraldista, estavam os desenhos dos últimos brasões que criara.
Como em várias circunstâncias, Natividade ocupou o cenários dos meus interesses. A oportunidade era de ouro e não deixei que escapasse... Perguntei ao referido senhor o que seria necessário par ver minha terra privilegiada com um trabalho dele. Não se fez de rogado. Externou, mesmo, o prazer de confeccionar o brasão para o berço natal de uma das premiadas do dia. Pediu-me, somente, que a ele fornecesse um esquema com os principais elementos característicos da terra.
Não perdi tempo. Ressuscitei na memória tudo o que já disse e que me pareceu intrinsecamente ligado à história de Natividade: da sua origem, em 1921, até a sonhada emancipação política.
Ressalte-se, de maneira definitiva e ardorosa, o entusiasmo de Renato Vieira da Silva, meu marido, que, por sua vez, contou com a colaboração dos meus sobrinhos Hugo e Hélio, e de outros, todos incansáveis pesquisadores percorrendo bibliotecas, afim de que tudo fosse fidedigno. Contatos com o Prof.° Alberto Lima (já falecido) foram constante, até que meu desenho fosse, finalmente, submetido às leis da Heráldica, recebendo a forme do Brasão.
Indispensável esclarecer: o componente e escrupuloso heraldista, antes de utilizar informações que lhe levaram, em todos os casos fazia sua própria pesquisa, a partir da Biblioteca do Exército do Ministério da Guerra.

VIII
Encerrando:

Natividade, uma glória
de civismo e tradição:
arte, fé, cultura e história
integram o seu Brasão.

Nosso brasão é o fruto de uma longa gestação que teve o seu início na curiosidade de uma criança pelos”puris”; cresceu com a fé em Nossa Senhora, orago da terra; caminhou pelo contato, direto, com descendentes dos desbravadores das nossas matas... E foi às bibliotecas.
Tudo aconteceu como contei, tendo por exclusivo por objetivo a intenção de transmitir às futuras gerações, um fato do qual participei, porque estava lá.